Matança apavora o município de Ananindeua

O  comerciante Junji Katsuki, 70, diz com todas as letras que não sabe “a hora que vai poder ser a próxima vítima”. (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará) O comerciante Junji Katsuki, 70, diz com todas as letras que não sabe “a hora que vai poder ser a próxima vítima”. (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

Se os constantes relatos de assaltos e roubos já impunham uma rotina de medo, o registro recente de pelo menos 10 homicídios no período de 4 horas, episódio ocorrido na última terça-feira (10), abalou de forma definitiva o cotidiano de parte dos moradores da grande Belém. Em bairros do município de Ananindeua, onde ocorreu grande parte dos assassinatos, a população já teme até mesmo a aproximação de veículos nas ruas.

Moradora do conjunto Cidade Nova 4 há mais de 30 anos, a aposentada Maria Silva, 73 anos, passa a maior parte do dia trancada dentro de casa. O medo de ser a próxima vítima de um assalto ou até mesmo de um assassinato não lhe permite sequer sentar no pátio de casa, mesmo que o espaço seja cercado por uma grade de ferro. “A gente não tem confiança de ficar sentado nem dentro da nossa casa mais”.

Diante de tantos episódios de violência, a vida vai se distanciando cada vez mais das ruas. À noite, Maria só sai de casa em situações de necessidade. Até para fazer um lanche ela opta por pedir que entreguem na residência. O medo que já impõe mudanças de comportamento não é à toa. Maria conta que há cerca de um mês a filha foi assaltada quando retornava da faculdade para a casa. “Roubaram os dois livros que ela estava trazendo para estudar e ainda fizeram um corte no braço dela”.

 

Já sendo obrigada a conviver com o risco de assalto, agora as constantes notícias de assassinatos levam ainda mais temor à rotina. A aposentada conta que não consegue relaxar enquanto todos da família não estão em casa. “Eu já oriento a minha filha: ‘Se você estiver andando e parar um carro prata perto de você, procura logo seguir para se abrigar onde tenha gente’”, reproduz o conselho destinado aos filhos. “Ninguém tem segurança mais. A gente fica sujeito a, a qualquer momento, acontecer alguma coisa com a gente”.

RISCO

Diante da iminência e do risco de ser a próxima vítima, o comerciante Junji Katsuki, 70 anos, se preocupa em atender aos clientes da mercearia instalada no Conjunto Cidade Nova 6 sempre por trás da grade. Mesmo com a proteção a mais, ele conta que precisa regular os horários em que mantém o comércio aberto. “A gente não sabe a hora que vai poder ser a próxima vítima. Quando começa a cair o movimento na rua, eu fecho tudo e vou embora”.

 

Em uma das vezes que Junji decidiu fechar a mercearia em decorrência da falta de movimento nas ruas, o comércio vizinho ao seu foi o escolhido como alvo pelos assaltantes. Ele lembra que, após o ocorrido, o vizinho até se mudou do local. “Ele continuou com a barbearia aberta e chegaram dois de moto e levaram o celular dele”, lembra. “A gente fica com medo não de nosso pertence ser levado, mas é de perder a vida por causa dele.”

FAMÍLIAS FICAM MAIOR PARTE DO TEMPO EM CASA

A situação se repete no conjunto Júlia Seffer, no bairro de Águas Lindas. O vendedor David Michel, 36 anos, conta que sua família também evita sair à noite e se mantém a maior parte do tempo isolada dentro de casa. Agora, além do medo de assalto, eles também precisam conviver com o medo por causa das notícias constantes de homicídios na região. “Há poucos dias, tivemos essas mortes em várias áreas da cidade e o que fica, para o morador, é só o medo”.

 

Nas áreas onde os registros de ocorrências de crimes se acumulam, o medo é o responsável por implantar um estado de silêncio quase absoluto. Na madrugada da última quinta-feira (12), Belém registrou mortes em sequência de 16 pessoas no período de apenas 24 horas. Em um dos casos, duas pessoas encapuzadas alvejaram um rapaz no bairro do Curuçambá.

Três dias após o ocorrido, foi difícil encontrar quem tivesse coragem de falar sobre a situação da violência no bairro. Apenas uma moradora, que não quis se identificar, comentou que, no Curuçambá, os moradores só podem contar com a proteção de Deus: “Todo tempo é perigoso. O jeito é se proteger da forma que dá. Só Deus nos guarda”.

As ruas calmas não traduzem o que realmente ocorre na cidade. (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

A aposentada Maria Silva, de 73 anos, se queixa da apreensão que vive no município. (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

A família do vendedor David Michel, de 36 anos, passa a maior parte do tempo em casa e evita sair à noite. (Foto: Irene Almeida/Diário do Pará)

 

(Cintia Magno/Diário do Pará)

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