Votação histórica na floresta amazonica 326 dos 327  indigenas Parakanã votam em Lula e massacra Flavio Bolsonaro.

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Com impressionantes 99,69% dos votos informados entre os 327 eleitores que compareceram às duas seções eleitorais, indígenas Parakanã, de Novo Repartimento, no Pará, protagonizam uma das mais expressivas demonstrações de apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Resultado ganha significado especial diante do debate sobre as políticas de proteção dos povos originários e reacende a memória da grave crise humanitária enfrentada pelos Yanomami durante o governo Jair Bolsonaro.

No coração da Floresta Amazônica, distante dos grandes centros urbanos e em meio à imensidão verde do estado do Pará, os indígenas da etnia Parakanã protagonizaram um episódio extraordinário nas eleições presidenciais de 2026.

Os números informados sobre a votação realizada neste domingo, 25 de outubro, impressionam pela dimensão da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição para seu quarto mandato à frente da Presidência da República.

Nas seções eleitorais 152 e 163, pertencentes à 101ª Zona Eleitoral, localizadas na zona rural do município de Novo Repartimento, dos 327 votos atribuídos aos candidatos, 326 foram destinados a Lula, número 13, enquanto apenas um voto foi atribuído ao candidato Flávio Bolsonaro (PL), número 22.

Trata-se de uma votação praticamente unânime, que representa, conforme os números apresentados, 99,69% dos votos para Lula e apenas 0,31% para Flávio Bolsonaro.

Sob a liderança dos caciques, uma manifestação expressiva nas urnas

A votação ocorreu em comunidades indígenas da etnia Parakanã, sob a liderança tradicional dos caciques Apoena Parakanã e Xawatirona Parakanã.

O resultado revela uma preferência eleitoral extraordinariamente concentrada em um único candidato, demonstrando a força do apoio ao presidente Lula entre os eleitores que participaram da votação nessas duas seções.

Em um universo de apenas 327 votos atribuídos aos candidatos, a diferença foi de impressionantes 325 votos.

Mais do que uma vitória eleitoral, o resultado pode ser interpretado como uma manifestação política de eleitores de comunidades indígenas que conhecem profundamente a importância da preservação de seus territórios, da proteção ambiental e do respeito aos direitos constitucionais dos povos originários.

A dimensão do percentual registrado entre os eleitores Parakanã, em Novo Repartimento, chama especialmente a atenção. Entretanto, ainda são necessárias informações complementares para determinar se essa votação representa o maior percentual de apoio a um candidato presidencial no Brasil entre seções eleitorais com até 330 eleitores.

O governo Bolsonaro e as graves violações dos direitos indígenas

Para compreender o contexto político desse resultado, é necessário recordar um dos capítulos mais dramáticos da história recente dos povos indígenas brasileiros: a crise humanitária enfrentada pelos Yanomami durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022.

Naquele período, o avanço do garimpo ilegal em terras indígenas, o desmatamento, a violência, a disseminação de doenças e as dificuldades de acesso à assistência médica agravaram profundamente as condições de vida de diversas comunidades.

A Terra Indígena Yanomami, localizada nos estados de Roraima e Amazonas, tornou-se um dos maiores símbolos dessa tragédia.

Milhares de garimpeiros ilegais avançaram sobre o território, abrindo pistas clandestinas, destruindo áreas de floresta, contaminando cursos d’água e comprometendo fontes tradicionais de alimentação das comunidades.

O mercúrio utilizado na extração ilegal de ouro representou uma ameaça especialmente grave. Ao atingir os rios e a cadeia alimentar, o metal tóxico passou a colocar em risco a saúde das populações indígenas, cuja sobrevivência depende diretamente da integridade dos ecossistemas amazônicos.

Além dos danos ambientais, a presença de garimpeiros provocou conflitos, ameaças, insegurança alimentar e dificuldades para o funcionamento dos serviços de saúde.

O resultado foi uma crise humanitária de enormes proporções, marcada por casos de desnutrição grave, malária e mortes evitáveis, inclusive entre crianças.

O governo Bolsonaro foi duramente criticado por organizações indígenas, entidades de direitos humanos e órgãos de fiscalização diante da insuficiência das medidas adotadas para impedir o avanço do garimpo ilegal e proteger as comunidades.

As denúncias também levantaram questionamentos sobre possíveis omissões do poder público e responsabilidades administrativas e políticas, cuja apuração exige a observância das conclusões das autoridades competentes.

Sônia Bridi e as imagens que chocaram o Brasil

Um dos momentos mais marcantes da exposição pública da tragédia Yanomami ocorreu por meio da cobertura jornalística realizada pela jornalista Sônia Bridi, da TV Globo.

Em suas reportagens sobre a situação dos povos indígenas e a destruição provocada pelo garimpo ilegal, a jornalista ajudou a revelar ao grande público a dimensão do sofrimento humano e ambiental na Amazônia.

As imagens de crianças extremamente debilitadas, indígenas sofrendo com a desnutrição, comunidades ameaçadas e áreas de floresta devastadas tornaram-se símbolos de uma crise que provocou indignação nacional e repercussão internacional.

A cobertura jornalística teve papel fundamental ao dar visibilidade às denúncias, apresentar relatos das comunidades e cobrar respostas das autoridades.

O sofrimento dos Yanomami deixou de ser apenas uma questão regional e passou a ocupar o centro do debate brasileiro sobre direitos humanos, saúde pública, responsabilidade governamental e proteção dos povos originários.

Aquelas imagens representaram um alerta dramático: a sobrevivência de comunidades indígenas estava ameaçada em pleno século XXI.

Lula, a emergência Yanomami e a retomada das políticas indígenas

Com o início de seu terceiro mandato, em janeiro de 2023, o presidente Lula colocou a crise Yanomami entre as prioridades emergenciais do governo federal.

Foi declarada Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional no território Yanomami, acompanhada de ações de assistência médica, distribuição de alimentos, operações contra o garimpo ilegal e medidas de proteção territorial.

O governo também criou o Ministério dos Povos Indígenas, uma iniciativa inédita na estrutura administrativa federal, e nomeou Sônia Guajajara para comandar a pasta.

A presença de uma liderança indígena à frente do ministério representou uma mudança importante na participação dos povos originários nas decisões do Estado brasileiro.

As ações federais passaram a envolver diferentes instituições, incluindo o Ministério da Saúde, a Funai, o Ibama, a Polícia Federal e as Forças Armadas, em operações destinadas a enfrentar a atividade garimpeira ilegal e recuperar a capacidade de atendimento às comunidades.

Apesar dos avanços e das medidas emergenciais, os problemas históricos não desapareceram. A proteção territorial, a recuperação ambiental e o enfrentamento das doenças continuam exigindo políticas permanentes e fiscalização efetiva.

Ainda assim, a mudança de orientação das políticas federais em relação aos povos indígenas tornou-se um elemento importante do debate político nacional.

Os Parakanã e o significado político de uma votação quase unânime

É nesse contexto que a votação dos indígenas Parakanã, em Novo Repartimento, ganha especial significado.

Ao atribuírem 326 dos 327 votos informados ao presidente Lula, os eleitores das seções 152 e 163 produziram um resultado de enorme força simbólica.

O placar não permite afirmar que todos os integrantes da etnia compartilham a mesma posição política, mas evidencia uma preferência amplamente majoritária entre os votantes dessas duas seções.

O resultado também reforça a importância de ouvir os próprios indígenas sobre suas escolhas, suas reivindicações e suas expectativas em relação ao governo federal.

Para os povos originários, a política nacional tem consequências diretas sobre a demarcação de terras, a assistência à saúde, a educação indígena, a segurança alimentar, a preservação das florestas e o enfrentamento das atividades ilegais em seus territórios.

Essas questões ultrapassam as disputas partidárias. São direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal de 1988, especialmente em seu artigo 231, que reconhece a organização social, os costumes, as línguas, as crenças, as tradições e os direitos originários dos povos indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam.

Uma mensagem que ecoa da floresta para o Brasil

A expressiva votação informada entre os indígenas Parakanã demonstra que as comunidades tradicionais também participam ativamente das grandes decisões políticas do país.

Em duas seções eleitorais situadas no interior da Amazônia paraense, a disputa presidencial apresentou um resultado excepcional: 326 votos para Lula e apenas um para Flávio Bolsonaro.

Uma diferença esmagadora, que transforma essas urnas em um dos exemplos mais impressionantes de concentração de votos apresentados nesta eleição.

O resultado merece destaque não apenas pelo percentual, mas também por sua dimensão histórica e política, especialmente diante das discussões nacionais sobre os direitos dos povos indígenas e a preservação da Amazônia.

Da floresta amazônica, os eleitores Parakanã enviaram uma mensagem inequívoca pelas urnas: entre os 327 votos informados, 326 escolheram Luiz Inácio Lula da Silva.

Um resultado extraordinário, que ficará registrado na memória eleitoral dessas comunidades e merece ser documentado como expressão da participação democrática dos povos originários.

Viva os povos indígenas Parakanã!

Viva a democracia!

Viva os povos originários da Amazônia brasileira!

Carlos Magno
Jornalista — DRT/PA 2627 Associado ao SINJOR, FENAJ e FIJ.