Do medo ao recomeço: sobreviver à violência e estar alerta aos sinais do abuso

A violência contra a mulher pode assumir diferentes formas e se manifestar em situações que, muitas vezes, começam de maneira silenciosa dentro das relações afetivas.

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A violência contra a mulher pode assumir diferentes formas e se manifestar em situações que, muitas vezes, começam de maneira silenciosa dentro das relações afetivas. Como parte da campanha Agosto Lilás, a série especial “Cinco histórias, uma luta, muitas vozes” apresenta relatos de mulheres que vivenciaram diferentes formas de violência e encontraram caminhos para buscar proteção, romper ciclos de agressão e reconstruir suas vidas. Para preservar a identidade das personagens, a série utiliza sobrenomes fictícios inspirados em metais: Cobre, Ouro, Ferro, Prata e Bronze. As cinco histórias serão publicadas no período de 17 a 21 de agosto, uma a cada dia.

A violência física, muitas vezes, pode ser precedida de comportamentos que indicam uma escalada de agressividade dentro da relação. Foi o que aconteceu com Prata, personagem da terceira narrativa desta série especial. O episódio mais grave ocorreu durante uma discussão com o companheiro, quando ela foi atingida na cabeça com um martelo.

Segundo o relato, os conflitos começaram com manifestações de ciúmes. Em determinado dia, o companheiro permaneceu em casa e, à noite, iniciou uma discussão. Prata conta que tentou evitar o confronto, mas ele continuou a discussão e passou a ameaçá-la.

“Eu disse que nem meu pai nunca tinha batido. Então, acho que ele se irritou mais ainda.”, relata. Na sequência, o homem pegou um martelo e a atingiu na cabeça.

Prata afirma que, antes daquele episódio, não considerava o companheiro uma pessoa violenta e também não percebeu sinais de que ele estivesse sob efeito de álcool ou outras substâncias. A agressão aconteceu enquanto os filhos estavam em outro cômodo da casa.

Após o ataque, Prata precisou ser levada ao hospital. Uma vizinha prestou os primeiros auxílios, ajudou com os filhos e, com o apoio de outro morador que tinha carro, a levou para receber atendimento médico. Durante o trajeto, a polícia foi acionada e posteriormente compareceu para atender à ocorrência. Ela também recebeu acompanhamento psicológico da rede municipal.

Apesar da gravidade da agressão, Prata afirma que não ficou com sequelas. Passou por avaliação médica e recebeu orientações para controlar eventuais dores de cabeça e evitar exposição excessiva ao sol.

Foto: Emanuel Jadir

Uma rede de apoio inesperada

Em meio ao momento de fragilidade, Prata encontrou apoio em pessoas que sequer conhecia. Sem familiares próximos na cidade e enfrentando dificuldades inclusive para ter um lugar onde morar, ela conta que recebeu ajuda de vizinhos e de outras pessoas que se solidarizaram com sua situação.

“Conheci muitas pessoas boas que me ajudaram bastante.”, afirma. Para ela, essa rede de apoio foi fundamental para recomeçar e reconstruir a própria vida.

A experiência, no entanto, também deixou marcas emocionais. Prata diz que passou a ter medo de iniciar um novo relacionamento e reconhece que desenvolveu um trauma após vivenciar uma situação de violência que, segundo ela, nunca havia experimentado anteriormente.

“É muito ruim ter sofrido violência, a gente fica com medo e sobressaltada.”, relata.

O alerta de quem sobreviveu

Hoje, ao olhar para a própria trajetória, Prata afirma que se sente mais experiente e atenta aos sinais presentes nas relações. A principal mensagem que gostaria de deixar para outras mulheres, especialmente as mais jovens, é para que observem comportamentos que possam indicar uma relação abusiva e não esperem que a violência chegue a níveis mais graves.

“Observar bastante e, se não der certo, sair fora logo antes que aconteçam coisas piores.”, aconselha.

A história de Prata mostra que a violência física pode surgir em uma relação na qual a mulher não reconhecia, até então, o companheiro como uma pessoa violenta. Também evidencia a importância de uma rede de proteção formada por familiares, amigos, vizinhos, serviços públicos e profissionais preparados para acolher e orientar mulheres em situação de violência.

Para Prata, reconstruir a vida também significa recuperar a confiança e compreender que uma experiência de violência não deve determinar todas as relações futuras. “Eu sei que não é (que todos os homens são iguais), mas é bom prestar atenção”, afirma.

Apoio: a personagem deste relato recebeu assistência dos serviços oferecidos pelo Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM), integrado à Secretaria Municipal da Mulher e Juventude (Semmju) de Canaã dos Carajás.

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