Os invasores levaram o sistema de som completo, televisor, aparelho de ar condicionado, aparador de grama, microfones, botijões de gás, talheres, pratos, copos , bandejas e outros utensílios. Arrombaram portas e janelas, quebraram os vidros, danificaram peças de arte.

Por conta dessa rapinagem, o presidente da APL, Ivanildo Ferreira Alves, precisou adiar a sessão alusiva ao Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades de Língua Portuguesa, com foco especial no escritor Fernando Pessoa.

Fundada em 3 de maio de 1900, a APL é mantida pelo empenho e doações diretas de seus acadêmicos e sua existência está ameaçada por um ciclo perpétuo de pilhagem e falta de patrocínio.

A despeito da gravidade dos fatos e de ter sido registrado na segunda-feira, 17, boletim de ocorrência na 6ª Seccional Urbana do Comércio, perante o delegado Sérvulo Cabral, não foi aberto inquérito pela Polícia Civil, nem executada perícia no local ou tomada qualquer providência a fim de identificar e punir os autores dos crimes.

A ausência de resposta estatal aprofunda o sentimento de desamparo.

A ironia não poderia ser mais perversa: na Belém do século XXI, a grande poesia em língua portuguesa é calada pela pequenez do crime rasteiro.

A geografia do absurdo ganha contornos ainda mais escandalosos pelo endereço onde se consuma. A APL fica no centro histórico, ao lado do Colégio Paes de Carvalho, em frente ao Tribunal Regional Eleitoral e ao Corpo de Bombeiros Militar, a poucos metros do Ministério Público do Estado e da Prefeitura de Belém. Essa contiguidade com o poder público transforma o crime em escárnio. Se a poucos metros de autoridades formais o templo das letras precisa apelar a mais do que grades reforçadas, cerca elétrica e cães ferozes para sobreviver, o que resta do conceito de ordem pública?

Os assaltos à APL são o retrato da pirataria urbana que dizima o patrimônio histórico de Belém.

Permitir que a Academia Paraense de Letras encerre suas atividades por incapacidade de conter criminosos recorrentes significa assinar o atestado de falência cultural do Estado. Uma cidade que não consegue proteger os livros, a história e as paredes que resguardam sua identidade já se entregou à escuridão.