Conheça a história de Osvaldo Machado, pioneiro vindo de Deodápolis / MS, que preserva a memória do município e relembra a trajetória da família na cidade
Na memória de Osvaldo Luiz Machado, há uma Canaã dos Carajás de poucas ruas, ainda tomadas pelo mato. Aos 68 anos, o proprietário do Hotel Lancaster mantém um acervo de fotografias que conta parte dessa transformação e o tornou conhecido pela dedicação à memória do município. Ele viu essa paisagem mudar e se emociona ao comparar as lembranças com a cidade de hoje.
No 32º aniversário de Canaã, em 5 de outubro, sua história ajuda a lembrar que a trajetória da cidade começou antes da emancipação. Vindo da região de Deodápolis, em Mato Grosso do Sul, Osvaldo conta que chegou ao Sul do Pará em 1979, com o propósito de adquirir terras e trabalhar na agropecuária. Naquele momento, a hotelaria ainda não fazia parte dos seus planos.
A mudança teve o incentivo de um amigo, Israel Monteiro, que veio primeiro e abriu caminho para a chegada do grupo. Segundo Osvaldo, eram dez pessoas, cada uma interessada em comprar uma área de terra. Alguns daqueles companheiros já morreram; outros continuam na região. Ao fazer o balanço da decisão, ele associa a vinda às oportunidades de trabalho e à vida que construiu com a família.
A entrada no ramo hoteleiro começou com uma iniciativa da esposa. Ela já mantinha a Confecções Demétrio no então Cedere II, localidade que daria origem a Canaã dos Carajás. Um dia, ao chegar em casa, Osvaldo a encontrou conversando com um pedreiro sobre a construção de um hotel. A lembrança dessa conversa marca, em seu relato, o começo de outro projeto familiar.
Da iniciativa surgiu o Hotel Lancaster. “A gente não veio para cá com o intuito de ter um hotel. Aconteceu naturalmente.”, conta Osvaldo. Ao recordar o episódio, ele atribui à esposa o primeiro passo para o empreendimento pelo qual também se tornaria conhecido na cidade.
Entre as mudanças que acompanhou, a emancipação do município ocupa um lugar especial. Para quem havia chegado anos antes e estabelecido ali sua vida, ver a localidade conquistar autonomia foi motivo de comemoração. “Foi uma das alegrias, dentro de várias.”, resume.
Quando fala da economia, Osvaldo faz questão de recuperar a importância da produção agrícola. Em suas lembranças, arroz, milho e feijão movimentavam o comércio e sustentavam a atividade produtiva local. “Era uma cidade muito produtiva.”, afirma. A mineração aparece em seu relato como uma etapa posterior de uma trajetória que já encontrava força no campo.
O que o surpreendeu foi a velocidade das transformações. Osvaldo imaginava que o desenvolvimento que testemunha levaria mais tempo para acontecer. “Canaã se desenvolveu muito rápido.”, diz. Ao comparar as poucas ruas de antes com a estrutura atual, descreve uma sensação de gratidão e espanto diante do tamanho que a cidade alcançou.
Ele também reconhece a presença de diferentes origens na formação da identidade local. Para Osvaldo, quem chegou trouxe costumes e referências que passaram a integrar o cotidiano do município. Sua mudança de Mato Grosso do Sul para o Pará também faz parte desse encontro de pessoas que escolheram Canaã para viver.
O acervo fotográfico
É nesse cenário de mudanças que seu acervo fotográfico ganha significado. As imagens que preserva ajudam a manter referências do passado e a contar a história de um município que se transformou diante de seus olhos. À experiência do morador que acompanhou esse percurso soma-se o cuidado de conservar registros que também pertencem à memória coletiva.
O acervo de Osvaldo, que reúne mais de 2 mil fotografias e recortes de jornais, nasceu sem planejamento prévio. Ele conta que fotografava os acontecimentos de Canaã dos Carajás e guardava os registros, até perceber a importância de reunir esse material para preservar a história do município. Osvaldo descreve essa iniciativa como um “acontecimento espiritual”, surgido naturalmente, e considera a coleção um legado para as futuras gerações, que também poderão utilizá-la como fonte de estudo.

A preocupação com a preservação da memória levou Osvaldo a ampliar o trabalho por meio de entrevistas compartilhadas no Instagram, com relatos de cerca de 600 pessoas, entre moradores e personagens da história local. A motivação, segundo ele, foi registrar experiências que poderiam se perder com a morte dos entrevistados ou a mudança deles para outras cidades e estados. Ao reunir essas vozes, busca conservar a contribuição de cada pessoa para a trajetória de Canaã. “Eu me sinto com a missão cumprida de ter entrevistado essas pessoas.”, afirma.
Ao falar do aniversário da cidade, Osvaldo agradece a Deus pela oportunidade de participar dessa história e à família pelo apoio ao longo do caminho. As lembranças do trabalho no campo, da iniciativa da esposa e da emancipação se encontram nesse sentimento de pertencimento. Para quem chega agora, deixa um conselho: “Desejo às pessoas que estão vindo cá, que acreditem e invistam aqui nessa cidade, porque vale a pena.”, afirmou.
Curiosidade
A pedra situada às proximidades do cruzamento na Avenida Pioneiro com a Travessa Teotônio Vilela, em Canaã dos Carajás, tem sua origem ligada a uma preocupação de Osvaldo com a segurança do comércio da família. Segundo ele, nos tempos do Cedere II, a esposa, Cleonice Demétrio, mantinha naquele local a loja Confecções Demétrio. As ruas ainda não tinham asfalto e, durante as chuvas, a passagem dos veículos lançava lama em direção ao estabelecimento. A localização próxima a uma curva também despertava o receio de que um carro ou caminhão atingisse a loja.

A solução surgiu quando Osvaldo avistou uma pedra em um lote vazio e decidiu utilizá-la como barreira de proteção. Com uma pá carregadeira à disposição, pediu que ela fosse transportada e posicionada junto ao estabelecimento.
“Me pega aquela pedra e coloca aqui!”, recorda, reproduzindo a orientação dada na ocasião. Colocada por uma necessidade prática, a pedra passou a integrar a paisagem local e guarda uma história ligada ao cotidiano do comércio e dos moradores da antiga vila.
Fonte: Da Redação






