Prefeita Josemira Gadelha sanciona lei que reconhece a Folia de Reis como patrimônio cultural imaterial do município.
Publicada nesta quinta-feira (29) no Diário Oficial dos Municípios, a legislação resgata mais de 35 anos de história, homenageia pioneiros como Benedito Pitaluga e Chico Mineiro, valoriza a hospitalidade de Dona Milinha e destaca a dedicação de Ronaldo Silva Araújo, um dos maiores incentivadores dessa manifestação cultural e religiosa em Canaã dos Carajás.
A fé que atravessa gerações, as cantorias que ecoam pelas estradas da zona rural, o som dos instrumentos musicais, as portas abertas das residências e a tradicional mesa farta preparada para receber os foliões agora fazem parte de uma história oficialmente reconhecida pelo poder público de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará.
A prefeita Josemira Gadelha (MDB) sancionou a Lei Municipal nº 1.210, de 28 de outubro de 2026, publicada na edição desta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, do Diário Oficial dos Municípios. A legislação reconhece a Folia de Reis como manifestação integrante do patrimônio cultural imaterial de Canaã dos Carajás e estabelece diretrizes para sua preservação e valorização.
A lei, aprovada pela Câmara Municipal e sancionada pela chefe do Executivo, representa um marco para uma tradição religiosa e cultural que já fazia parte da vida das famílias canaenses muito antes da emancipação político-administrativa do município, ocorrida em 5 de outubro de 1994.
Mais do que reconhecer uma festividade, a legislação representa uma homenagem àqueles que, há mais de 35 anos, ajudaram a construir a identidade cultural de Canaã dos Carajás, preservando costumes, crenças, músicas e manifestações de fé trazidos de outras regiões do Brasil.
UMA TRADIÇÃO QUE NASCEU DA FÉ E ATRAVESSOU SÉCULOS
A Folia de Reis é uma das mais tradicionais manifestações da religiosidade popular brasileira. Suas origens estão relacionadas às celebrações cristãs da Epifania, à tradição ibérica e à devoção aos Três Reis Magos — Gaspar, Melchior e Baltazar — que, segundo a tradição cristã, seguiram uma estrela até encontrar o Menino Jesus, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra.
Introduzida no Brasil durante o período colonial, especialmente por influência portuguesa, a tradição ganhou características próprias em diferentes regiões do país.
Com o passar dos séculos, a Folia de Reis consolidou-se como uma celebração marcada pela religiosidade, pela música, pela solidariedade e pela hospitalidade das famílias.
Tradicionalmente, os grupos de foliões percorrem residências e propriedades rurais, levando cantorias, orações e mensagens de paz, anunciando simbolicamente a visita dos Reis Magos ao Menino Jesus.
Em muitas comunidades, as visitas acontecem entre o Natal e o dia 6 de janeiro, data dedicada à celebração dos Santos Reis, embora os calendários possam variar conforme os costumes locais.
Por onde passam, os foliões são recebidos com respeito, alegria e fartura. A mesa preparada pelos anfitriões simboliza a partilha, a gratidão e a união comunitária.
EM CANAÃ DOS CARAJÁS, A FOLIA DE REIS CHEGOU ANTES DA EMANCIPAÇÃO
A história da Folia de Reis em Canaã dos Carajás está diretamente relacionada ao processo de ocupação e formação das primeiras comunidades rurais do município.
Muito antes de Canaã conquistar sua autonomia político-administrativa, famílias pioneiras oriundas principalmente dos estados de Goiás e Minas Gerais trouxeram consigo costumes, tradições religiosas e manifestações culturais que ajudaram a formar a identidade da população local.
Entre essas manifestações estava justamente a Folia de Reis.
Naquele período, quando Canaã ainda integrava o território de Parauapebas, as dificuldades de deslocamento, as estradas precárias e as grandes distâncias entre as propriedades rurais não impediam que os foliões percorressem fazendas e residências, levando a mensagem de fé e mantendo viva uma tradição herdada de seus antepassados.
Entre os pioneiros que contribuíram decisivamente para a implantação e a consolidação da Folia de Reis no município, merecem destaque os saudosos Benedito Pitaluga e Chico Mineiro.
Foram homens que, ao lado de outras famílias pioneiras, ajudaram a transformar uma tradição trazida de seus estados de origem em uma das mais representativas manifestações culturais e religiosas de Canaã dos Carajás.
A Folia de Reis, portanto, não nasceu com a criação do município. Ela já existia, reunia famílias, mobilizava comunidades e ajudava a fortalecer os vínculos sociais entre os moradores da cidade e do campo.
É essa história, construída ao longo de mais de três décadas e meia, que agora recebe o reconhecimento oficial do município.
CHICO MINEIRO E DONA MILINHA: UMA HISTÓRIA DE FÉ, GENEROSIDADE E MESA FARTA
Entre as famílias que ajudaram a preservar a tradição da Folia de Reis em Canaã dos Carajás, uma merece reconhecimento especial: a família do saudoso pecuarista Chico Mineiro e de sua esposa, Dona Milinha.
Durante muitos anos, o casal transformou a sede de sua propriedade rural em um dos mais tradicionais pontos de encontro dos foliões.
A cada edição da festividade, a fazenda abria suas portas para receber centenas de participantes, familiares, amigos e devotos dos Santos Reis.
E a recepção tinha uma característica que se tornou marca registrada da família: a generosidade.
Mesas fartas, comidas preparadas com carinho, muita alegria, música e cantorias faziam parte de uma celebração que ultrapassava os limites da propriedade e se transformava em um verdadeiro encontro comunitário.
A hospitalidade de Chico Mineiro e Dona Milinha simboliza um dos aspectos mais bonitos da Folia de Reis: a disposição de compartilhar aquilo que se tem com aqueles que chegam trazendo uma mensagem de fé.
Naquelas reuniões, a comida nunca era apenas alimento. Representava acolhimento, amizade, gratidão e respeito à tradição.
As cantorias atravessavam a noite, os instrumentos acompanhavam os versos dedicados aos Santos Reis e as famílias celebravam juntas uma manifestação que unia gerações.
O legado deixado por Chico Mineiro permanece como uma referência na história cultural de Canaã dos Carajás. Dona Milinha também merece lugar de destaque nessa memória, pela contribuição à preservação de uma tradição que ajudou a marcar a vida de inúmeras famílias.
RONALDO SILVA ARAÚJO: UM DOS MAIORES GUARDIÕES DA FOLIA DE REIS EM CANAÃ
A dedicação de quem trabalha para impedir que a tradição desapareça.
Se os pioneiros foram responsáveis por trazer e consolidar a Folia de Reis em Canaã dos Carajás, sua continuidade também depende do esforço de pessoas que assumiram o compromisso de preservar essa herança cultural.
Nesse contexto, merece especial reconhecimento Ronaldo Silva Araújo, apontado como um dos maiores incentivadores e defensores da Folia de Reis no município.
Seu envolvimento com a manifestação representa o compromisso daqueles que compreendem que uma tradição não sobrevive apenas pelas lembranças do passado. Ela precisa ser cultivada, valorizada e transmitida às novas gerações.
Ronaldo Silva Araújo integra esse grupo de pessoas que mantém viva a chama da Folia de Reis, incentivando sua continuidade e defendendo a importância de preservar as raízes culturais da comunidade.
Para ele, a sanção da lei pela prefeita Josemira Gadelha representa um reconhecimento histórico às famílias e aos pioneiros que contribuíram para a implantação e a manutenção da festividade no município.
O reconhecimento oficial também fortalece o trabalho de quem, ao longo dos anos, dedicou tempo, esforço e entusiasmo à preservação dessa manifestação.
É importante destacar que o patrimônio cultural de um povo não é construído apenas por monumentos, prédios ou documentos históricos. Ele também é formado por pessoas, histórias, saberes, músicas, celebrações e costumes transmitidos de geração em geração.
Nesse sentido, o trabalho de Ronaldo Silva Araújo merece ser valorizado como parte fundamental do esforço coletivo para manter a Folia de Reis presente na vida cultural e religiosa de Canaã dos Carajás.
PREFEITA JOSEMIRA GADELHA SANCIONA LEI DE VALORIZAÇÃO CULTURAL PUBLICADA NO DIÁRIO OFICIAL
Publicada na edição de quinta-feira, 29 de outubro de 2026, do Diário Oficial dos Municípios, a Lei Municipal nº 1.210/2026 estabelece mecanismos de reconhecimento e valorização da Folia de Reis.
Em seu artigo 1º, a legislação reconhece expressamente a manifestação como de relevante interesse local e integrante do patrimônio cultural imaterial de Canaã dos Carajás.
O reconhecimento considera os valores históricos, culturais, comunitários, artísticos e tradicionais associados à festividade.
Outro ponto de grande importância está no artigo 2º, que institui oficialmente o dia 6 de janeiro como o Dia Municipal da Folia de Reis, incluindo a data no Calendário Oficial do Município.
A medida representa uma conquista simbólica para os foliões e para as famílias que mantêm viva a tradição.
A legislação também estabelece diretrizes para sua valorização, entre elas:
– Preservação da memória e dos saberes tradicionais relacionados à Folia de Reis.
– Respeito à autonomia dos grupos, comunidades, mestres, foliões e demais participantes.
– Transmissão dos conhecimentos, práticas e expressões culturais às novas gerações.
– Promoção da diversidade cultural e da liberdade de consciência e de crença.
– Proteção das músicas, danças, vestimentas, símbolos, narrativas e demais expressões próprias da tradição.
O artigo 4º estabelece ainda que o poder público municipal poderá apoiar iniciativas destinadas à preservação, valorização e divulgação da Folia de Reis, observadas as disposições legais e as disponibilidades orçamentárias e financeiras.
A legislação não cria automaticamente programas administrativos nem determina despesas imediatas. Também não dispensa eventuais procedimentos técnicos de inventário ou registro previstos na legislação municipal de proteção ao patrimônio cultural.
Ainda assim, a lei oferece uma importante base institucional para futuras ações de salvaguarda dessa manifestação.
Ao sancionar a legislação, a prefeita Josemira Gadelha confere reconhecimento oficial a uma tradição que já ocupava lugar especial na memória afetiva e religiosa da população canaense.
AS CANTORIAS, A MESA FARTA E AS PORTAS ABERTAS: A ALMA DA FOLIA DE REIS
Quem conhece a Folia de Reis em Canaã dos Carajás sabe que a manifestação vai muito além das apresentações musicais.
Durante o período das celebrações, grupos de foliões percorrem propriedades rurais e residências da cidade, levando consigo instrumentos musicais, bandeiras, cantorias e mensagens de fé.
A chegada dos foliões é motivo de alegria.
As famílias se mobilizam para preparar a recepção. Panelas são colocadas no fogo, mesas são organizadas e pratos tradicionais são servidos aos visitantes.
A comida farta é uma das marcas mais bonitas da festividade.
Nas fazendas e nas residências, o encontro se transforma em uma verdadeira celebração da amizade e da solidariedade.
Enquanto os foliões entoam suas cantorias, os anfitriões recebem parentes, vizinhos e amigos. Crianças acompanham os instrumentos, os mais velhos recordam histórias e a tradição se renova a cada visita.
É nesse ambiente de confraternização que a Folia de Reis revela sua maior riqueza: a capacidade de aproximar pessoas e fortalecer os laços comunitários.
A bandeira dos Santos Reis, as músicas tradicionais, os versos religiosos e os rituais de acolhimento constituem elementos de um patrimônio cultural que não pode ser medido apenas pelo seu valor material.
Seu verdadeiro significado está na memória, na fé e no sentimento de pertencimento das famílias.
O GRANDE DESAFIO: TRANSMITIR A TRADIÇÃO ÀS NOVAS GERAÇÕES
Apesar do reconhecimento oficial, a preservação da Folia de Reis apresenta um desafio que não pode ser ignorado: garantir que crianças, adolescentes e jovens conheçam, respeitem e deem continuidade a essa manifestação cultural.
A modernização da sociedade, as mudanças nos hábitos familiares e a influência das novas tecnologias modificaram profundamente a maneira como as novas gerações se relacionam com as tradições populares.
Muitos dos pioneiros que implantaram a Folia de Reis em Canaã dos Carajás já faleceram, levando consigo histórias, experiências e conhecimentos que precisam ser preservados.
Por isso, o reconhecimento estabelecido pela Lei nº 1.210/2026 deve representar também um estímulo para que escolas, instituições culturais, famílias e grupos de foliões desenvolvam iniciativas de valorização dessa memória.
Registrar depoimentos dos antigos participantes, documentar as cantorias, preservar fotografias, identificar os mestres da tradição e incentivar a participação dos jovens são medidas que podem contribuir para sua continuidade.
A Folia de Reis não pode se transformar apenas em uma lembrança contada pelos mais velhos.
Ela precisa continuar viva nas estradas, nas fazendas, nas residências, nas vozes dos cantadores e no coração das novas gerações.
UMA HOMENAGEM AOS PIONEIROS E UM COMPROMISSO COM O FUTURO
A sanção da Lei Municipal nº 1.210/2026 representa mais do que um ato administrativo.
É um reconhecimento à contribuição cultural das famílias que ajudaram a construir a história de Canaã dos Carajás.
É uma homenagem à memória de Benedito Pitaluga, Chico Mineiro e de tantos outros pioneiros que, mesmo enfrentando as dificuldades de uma região ainda em formação, encontraram na fé e na tradição uma maneira de reunir as comunidades.
É também uma valorização da hospitalidade de Dona Milinha e das famílias que, ano após ano, mantêm suas portas abertas para receber os foliões.
E é, sobretudo, um reconhecimento à dedicação de pessoas como Ronaldo Silva Araújo, que continuam trabalhando para preservar essa importante manifestação da cultura popular.
A prefeita Josemira Gadelha, ao sancionar a legislação aprovada pela Câmara Municipal, contribui para que uma tradição com mais de 35 anos de presença em Canaã dos Carajás receba o devido reconhecimento institucional.
A história de um município não é construída apenas por seus governantes, suas obras ou seu desenvolvimento econômico.
Ela também é escrita pelas mãos de quem prepara uma refeição para receber os visitantes, pelas vozes que entoam antigas cantorias, pelos passos dos foliões nas estradas de terra e pela fé das famílias que mantêm vivos os costumes herdados de seus antepassados.
Que o som da Folia de Reis continue ecoando pelas fazendas, pelas ruas e pelas residências de Canaã dos Carajás. Que nunca falte uma porta aberta, uma mesa farta, uma cantoria e uma nova geração disposta a carregar essa tradição adiante.
Porque preservar a Folia de Reis é, acima de tudo, preservar uma parte da própria história de Canaã dos Carajás.
Carlos Magno
Jornalista – Registro Profissional DRT/PA 2627
Associado (SINJOR), à (FENAJ) e (FIJ).
Historiador e profundo conhecedor da história político-administrativa e cultural de Canaã dos Carajás desde sua emancipação.



