Vereador Cleido Braz transforma tribuna da Câmara de Canaã em palanque bolsonarista e expõe ressentimento com derrota  eleitoral.

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Em seu primeiro mandato, vereador do União Brasil protagoniza mais um discurso marcado por ataques políticos, provocações ideológicas e declarações controversas.

Parlamentar, que já enfrentou pedido popular de cassação por fala considerada homofóbica, voltou a provocar polêmica durante a 35ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Canaã dos Carajás, realizada terça-feira (27).

A tribuna da Câmara Municipal de Canaã dos Carajás voltou a ser palco de mais um pronunciamento controverso do vereador Cleido Braz (União Brasil). Durante a 35ª Sessão Ordinária, o parlamentar, conhecido por sua identificação com o bolsonarismo e por discursos frequentemente marcados por confrontos ideológicos, utilizou o Grande Expediente para manifestar seu inconformismo com a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em vez de concentrar sua manifestação nos problemas e nas demandas da população de Canaã dos Carajás, Cleido Braz preferiu dedicar boa parte de seu tempo a uma extensa análise política nacional, recheada de provocações, ironias e críticas aos eleitores que comemoraram a vitória de Lula.

O pronunciamento, que mais pareceu um desabafo de quem ainda não assimilou o resultado das urnas, revelou uma evidente contradição: enquanto procurava demonstrar tranquilidade diante da derrota de seu candidato, o vereador dedicou longos minutos a desqualificar a comemoração dos vencedores.

Afinal, se não existe dor de cotovelo, por que tanto ressentimento com a alegria dos adversários?

GRAVATA VERMELHA, HOMENAGEM A TRUMP E DEFESA DE FLÁVIO BOLSONARO

Cleido Braz iniciou sua manifestação fazendo questão de explicar por que compareceu à sessão vestindo terno azul e gravata vermelha.

Segundo ele, a gravata não representava qualquer homenagem ao Partido dos Trabalhadores, mas uma demonstração de reconhecimento ao presidente norte-americano Donald Trump, do Partido Republicano.

O vereador declarou:

“Eu fiz questão de vir nessa tarde, de terno azul e de gravata vermelha, não para homenagear o PT, mas para agradecer o presidente norte-americano.”

Em seguida, elogiou Trump pela suposta solidariedade a Flávio Bolsonaro, a quem chamou de “cidadão de bem”, afirmando que o candidato derrotado teria precisado fugir do Brasil para evitar uma prisão.

O parlamentar também classificou o Brasil como uma ditadura, embora não tenha apresentado, durante o trecho reproduzido de seu discurso, elementos concretos que sustentassem uma acusação de tamanha gravidade.

É perfeitamente legítimo que um vereador tenha suas preferências políticas e manifeste apoio a lideranças nacionais ou internacionais. Entretanto, transformar a tribuna de um Legislativo municipal em espaço para exaltação de um presidente estrangeiro e ataques generalizados às instituições brasileiras merece questionamento.

A Câmara Municipal não é um comitê eleitoral permanente, tampouco deveria funcionar como extensão de palanques ideológicos.

A INSINUAÇÃO SOBRE UMA ELEIÇÃO DE TRÊS TURNOS

Outro momento controverso ocorreu quando Cleido Braz afirmou que a eleição presidencial brasileira teria sido a única, em seus 49 anos de vida, realizada em três turnos.

“Foi a única eleição dos meus 49 anos de vida que eu vi ter três turnos”, declarou.

A afirmação, apresentada de maneira irônica, não veio acompanhada de qualquer explicação consistente sobre a existência de um suposto terceiro turno.

O vereador também fez referências a um sistema político supostamente organizado contra seu candidato, mas evitou esclarecer quais seriam os mecanismos utilizados.

Insinuações dessa natureza, quando não acompanhadas de provas, pouco contribuem para o debate democrático.

O resultado de uma eleição pode e deve ser analisado criticamente. O que não se pode admitir como argumento consistente é a tentativa de lançar suspeitas genéricas sobre o processo eleitoral sem apresentar evidências.

A ALEGRIA DOS VENCEDORES INCOMODOU O VEREADOR

Uma das passagens mais reveladoras do pronunciamento foi a tentativa de estabelecer uma diferença entre alegria e euforia.

Na interpretação de Cleido Braz, os brasileiros que comemoraram a vitória de Lula teriam experimentado apenas uma satisfação passageira, pois continuariam enfrentando dificuldades econômicas e sociais.

O parlamentar chegou a mencionar pessoas que, segundo sua narrativa, teriam retornado das comemorações sem água em casa, com contas atrasadas, geladeiras vazias e ameaças de corte de energia elétrica.

Em outro momento, fez referências depreciativas a eleitores que teriam comemorado o resultado consumindo bebidas alcoólicas.

O discurso revela uma visão questionável sobre a população de menor renda.

Desde quando possuir uma geladeira cheia ou ter condições de pagar atendimento médico particular confere a alguém superioridade moral ou política sobre os demais brasileiros?

A pobreza não retira de ninguém o direito de comemorar uma vitória eleitoral. Da mesma forma, dificuldades financeiras não tornam o voto de um cidadão menos legítimo.

É justamente para enfrentar problemas como a fome, a desigualdade, o desemprego e a falta de serviços públicos que existem eleições, políticas públicas e representantes escolhidos pelo povo.

Reduzir a comemoração de milhões de eleitores a uma suposta euforia de pessoas endividadas representa uma abordagem socialmente insensível e politicamente arrogante.

GELADEIRA CHEIA, CONTAS PAGAS E SAÚDE PARTICULAR

Em uma das passagens mais surpreendentes, Cleido Braz fez questão de destacar sua própria condição financeira.

“Eu continuo com as minhas contas paga. Eu continuo com a minha geladeira cheia. Eu continuo trabalhando. A minha esposa continua empregada.”

O vereador também declarou possuir condições de recorrer à saúde particular caso não consiga atendimento na rede pública.

A manifestação merece uma reflexão.

Cleido Braz ocupa uma cadeira no Legislativo municipal justamente para representar a população, inclusive aqueles cidadãos que não dispõem dos mesmos recursos financeiros que ele afirma possuir.

A verdadeira grandeza de um representante público não está em anunciar que tem dinheiro para pagar suas contas ou custear um hospital particular.

Está em trabalhar para que a população tenha acesso a serviços públicos dignos, independentemente de sua renda, preferência partidária ou condição social.

O problema não é o vereador ter a geladeira cheia. O problema é utilizar essa condição como argumento político enquanto ironiza as dificuldades enfrentadas por brasileiros menos favorecidos.

A TRAJETÓRIA POLÊMICA DE UM VEREADOR EM PRIMEIRO MANDATO

Eleito para exercer seu primeiro mandato na Câmara Municipal de Canaã dos Carajás, Cleido Braz já construiu uma trajetória parlamentar marcada por controvérsias, declarações provocativas e frequentes embates políticos.

O episódio mais grave ocorreu após uma manifestação dirigida ao secretário municipal de Educação, Leonardo Cruz.

Durante pronunciamento relacionado às comemorações de 7 de Setembro de 2025, Cleido Braz afirmou que o secretário não desfilava, mas “rebolava”, em declaração interpretada por críticos como uma insinuação homofóbica.

A fala provocou indignação e motivou uma mobilização popular que resultou na apresentação de um pedido de cassação de seu mandato.

O episódio tornou-se um marco controverso na história política do município, pela iniciativa popular de responsabilização de um integrante do Legislativo.

Entretanto, a proposta não obteve aprovação na Câmara Municipal.

Para os críticos da atuação parlamentar, o desfecho evidenciou uma postura corporativista da Casa Legislativa, que teria deixado de aplicar uma resposta política proporcional à gravidade da declaração.

É importante destacar que a rejeição do pedido de cassação não elimina o direito da sociedade de questionar a conduta de seus representantes.

A liberdade de expressão constitui uma garantia constitucional, mas não deve ser confundida com autorização irrestrita para manifestações discriminatórias ou ataques à dignidade de outras pessoas.

UM DISCURSO QUE PARECE NÃO TER FIM

Na última sessão, Cleido Braz ainda encontrou tempo para abordar o Ibama, questões ambientais, segurança jurídica, problemas de saneamento em Belém, a situação econômica nacional, o Bolsa Família e até uma conversa com sua filha de oito anos sobre a eleição presidencial.

Ao mencionar o resultado eleitoral em Canaã dos Carajás, afirmou que 34.456 eleitores, correspondentes a 62,96% dos votos segundo os números citados por ele, teriam escolhido seu candidato.

O vereador também declarou representar uma corrente política apoiada por aproximadamente 60 milhões de brasileiros.

Entretanto, votação expressiva de um candidato derrotado não constitui autorização para desqualificar os eleitores do adversário vencedor.

A democracia assegura voz à maioria e à minoria. Exige, porém, respeito ao resultado das urnas e às instituições responsáveis pela organização do processo eleitoral.

O parlamentar afirmou ainda que não teme ser cancelado e que continuará defendendo seus posicionamentos, independentemente das críticas.

Ninguém está exigindo que Cleido Braz abandone suas convicções políticas.

O que se espera de um representante eleito é equilíbrio, responsabilidade e compromisso com os interesses da população.

Convicção política não é sinônimo de intolerância. Firmeza de opinião não exige arrogância. E independência parlamentar não significa transformar cada pronunciamento em uma interminável disputa ideológica.

ATÉ A BÍBLIA ENTROU NO DISCURSO POLÍTICO

Na conclusão, Cleido Braz recorreu ao livro bíblico do profeta Habacuque para afirmar que sua esperança está em Deus, e não no PT ou no PL.

O vereador encerrou com referências à família, ao trabalho e à conhecida expressão utilizada por setores da direita brasileira:

“Pegue pela direita, que a esquerda é contramão.”

A utilização de passagens bíblicas em manifestações políticas é uma escolha pessoal legítima. Entretanto, a invocação da fé não deveria servir como instrumento para dividir cidadãos entre supostos defensores do bem e representantes do mal.

A fé cristã também ensina respeito ao próximo, humildade, solidariedade e compreensão das diferenças.

Valores que deveriam inspirar a atuação de qualquer representante público, independentemente de sua orientação partidária.

CANAÃ DOS CARAJÁS PRECISA DE REPRESENTAÇÃO, NÃO DE RESSENTIMENTO

Cleido Braz tem todo o direito de ser bolsonarista, defender Donald Trump, apoiar Flávio Bolsonaro e discordar do presidente Lula.

Esse direito é assegurado pela democracia brasileira.

Entretanto, o exercício de um mandato parlamentar exige mais do que discursos inflamados, provocações políticas e manifestações de inconformismo eleitoral.

Canaã dos Carajás possui demandas concretas que merecem atenção permanente de seus vereadores: saúde, educação, infraestrutura, saneamento, mobilidade urbana, fiscalização dos recursos públicos e qualidade dos serviços prestados à população.

Esses são temas que deveriam ocupar o centro das discussões no Legislativo municipal.

Em seu primeiro mandato, Cleido Braz ainda dispõe de tempo para demonstrar que sua atuação parlamentar pode produzir resultados concretos para a sociedade, para além das polêmicas que frequentemente protagoniza.

O problema é que, até aqui, seus pronunciamentos mais controversos parecem alcançar maior repercussão do que eventuais propostas legislativas.

Ao afirmar que não sente dor de cotovelo, enquanto dedica grande parte de seu discurso à derrota de seu candidato e à tentativa de diminuir a comemoração dos vencedores, o próprio vereador oferece elementos para uma interpretação bem diferente.

Afinal, quem realmente superou uma derrota eleitoral não precisa passar tanto tempo tentando convencer os outros de que não está incomodado.

A tribuna da Câmara Municipal de Canaã dos Carajás merece ser utilizada para o debate de ideias, a apresentação de soluções e a defesa dos interesses coletivos.

Não para alimentar ressentimentos políticos ou transformar divergências ideológicas em ataques permanentes.

Porque mandato parlamentar não é propriedade de partido, de corrente ideológica ou de liderança política. É uma responsabilidade pública conferida pelo eleitor.

E Cleido Braz precisa compreender que foi eleito vereador de Canaã dos Carajás, não porta-voz de Donald Trump nem defensor parlamentar de Flávio Bolsonaro

JOTA JUNIOR. Radialista e comunicador na cidade de Canaã dos Carajás. chegou na cidade em 1999, casado pai de 05 filhos, mostrou sua indignação na fala do vereador Cleudo Braz.

O Radialista nunca foi filiado a nenhum partido, mas defende as idéias que são colocadas a prova pelo fundador do Partido do Trabalhadores Luiz Inacio Lula da Silva.

Por Jota Junior.

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