Nascido no mesmo dia do atentado do Riocentro, o senador Flávio Bolsonaro construiu uma trajetória política marcada por manifestações favoráveis ao regime militar. Em discursos e publicações, defendeu a memória do golpe de 1964 e manifestou admiração pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura.
Artigo de análise política e histórica, adaptado de comentário em vídeo do jornalista Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo.
30 DE ABRIL DE 1981: DUAS HISTÓRIAS MARCADAS PELA MESMA DATA
O dia 30 de abril de 1981 entrou definitivamente para a história política brasileira.
Naquela noite, enquanto milhares de pessoas participavam de um espetáculo musical em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro, no Rio de Janeiro, dois militares do Exército transportavam explosivos em uma operação que se tornaria um dos episódios mais emblemáticos da violência praticada por setores contrários à abertura democrática.
Uma das bombas explodiu prematuramente dentro de um automóvel, matando o sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo gravemente o capitão Wilson Machado.
As investigações posteriores apontaram para uma ação destinada a produzir um atentado que pudesse ser atribuído a organizações de esquerda, criando um ambiente de medo e instabilidade política.
O objetivo era atingir o processo de redemocratização que começava a ganhar força durante o governo do general João Baptista Figueiredo, último presidente do ciclo militar iniciado em 1964.
Naquele mesmo 30 de abril de 1981, nascia Flávio Nantes Bolsonaro, primeiro filho de Jair Messias Bolsonaro.
Evidentemente, ninguém escolhe a data do próprio nascimento. Flávio Bolsonaro não possui qualquer responsabilidade pelo atentado do Riocentro.
Entretanto, como observa a reflexão de Bernardo Mello Franco, existe uma diferença fundamental entre as circunstâncias do nascimento e as escolhas políticas feitas ao longo da vida.
É justamente nesse segundo aspecto que a trajetória do senador merece ser examinada.
A DEFESA DO GOLPE DE 1964 E A MEMÓRIA DO REGIME MILITAR
Ao longo de sua carreira parlamentar, Flávio Bolsonaro manifestou publicamente posições favoráveis à memória do movimento militar de 31 de março de 1964.
O golpe derrubou o presidente constitucional João Goulart e inaugurou uma ditadura que se prolongaria por 21 anos, até 1985.
Durante esse período, o Brasil conviveu com a supressão de direitos políticos, censura à imprensa, cassações de mandatos, perseguições, prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados.
As graves violações de direitos humanos cometidas por agentes do Estado foram documentadas pela Comissão Nacional da Verdade.
Apesar desse registro histórico, Flávio Bolsonaro adotou, em manifestações políticas, uma interpretação favorável à intervenção militar de 1964.
A frase atribuída a um de seus discursos sintetiza essa perspectiva:
“7 de setembro nos deu a independência; 31 de março, a liberdade.”
Essa interpretação contrasta diretamente com as conclusões da historiografia predominante e com as investigações oficiais sobre a repressão política durante o regime.
A questão central não é impedir o debate sobre a história brasileira. É reconhecer que a avaliação de um período autoritário precisa considerar também suas vítimas, os direitos suprimidos e a violência exercida pelo próprio Estado.
O CORONEL USTRA: O PERSONAGEM MAIS CONTROVERSO DESSA ADMIRAÇÃO
Entre os nomes associados à repressão política brasileira, poucos representam tão claramente as práticas de tortura do regime militar quanto o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.
Ustra comandou o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, entre 1970 e 1974, período marcado por denúncias e registros de torturas contra presos políticos.
Em 2008, a Justiça de São Paulo reconheceu, em decisão histórica de natureza civil, a responsabilidade de Ustra por atos de tortura.
Seu nome também aparece nos registros da Comissão Nacional da Verdade relacionados às graves violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura.
Relatos de sobreviventes descrevem espancamentos, choques elétricos, ameaças, humilhações e outras formas de violência utilizadas nos órgãos de repressão.
Há também testemunhos sobre crianças expostas ao sofrimento de seus familiares presos.
É nesse contexto que adquire relevância política a admiração manifestada por integrantes da família Bolsonaro pelo coronel.
No livro Mito ou Verdade, lançado em 2017, Flávio Bolsonaro, segundo a análise apresentada por Bernardo Mello Franco, faz referências elogiosas a Ustra e defende uma interpretação favorável à atuação dos militares durante o regime.
O contraste é evidente: enquanto vítimas e familiares lutaram durante décadas pelo reconhecimento das torturas e pela preservação da memória dos mortos e desaparecidos, manifestações elogiosas a agentes da repressão procuram apresentar esses personagens sob uma perspectiva de heroísmo e patriotismo.
A controvérsia ultrapassa a biografia de um coronel.
Ela envolve a maneira como representantes políticos interpretam a violência de Estado e a responsabilidade histórica daqueles que participaram do aparato repressivo.
RUBENS PAIVA E AS VÍTIMAS QUE A HISTÓRIA NÃO PODE ESQUECER
Outro personagem fundamental dessa discussão é o ex-deputado federal Rubens Paiva.
Cassado após o golpe de 1964, Rubens Paiva foi preso por agentes da repressão em janeiro de 1971, no Rio de Janeiro.
Nunca mais voltou para casa.
As investigações da Comissão Nacional da Verdade concluíram que ele foi morto em consequência da violência praticada por agentes do Estado, e seu corpo permaneceu desaparecido.
Sua história tornou-se um dos símbolos da luta das famílias brasileiras pelo direito à memória, à verdade e à justiça.
Ao discutir as manifestações políticas de Flávio Bolsonaro sobre o regime militar, é indispensável recordar que a ditadura não representa apenas uma disputa de interpretações ideológicas.
Ela deixou vítimas identificadas, famílias destruídas e violações documentadas.
O ATENTADO DO RIOCENTRO E A MEMÓRIA DA FAMÍLIA BOLSONARO
O atentado do Riocentro permanece como uma das demonstrações mais expressivas da resistência de setores da repressão ao processo de abertura política.
O episódio expôs a atuação de grupos interessados em prolongar o regime autoritário e impedir o avanço da democracia.
Décadas depois, a reabertura das investigações voltou a colocar o atentado no centro do debate público.
Segundo o relato apresentado por Bernardo Mello Franco, Jair Bolsonaro acompanhou, em 2014, o depoimento de um dos militares envolvidos nas investigações do caso.
Esse episódio integra o histórico de manifestações públicas da família sobre personagens e acontecimentos relacionados à ditadura.
Contudo, a coincidência entre o nascimento de Flávio Bolsonaro e o atentado não estabelece qualquer vínculo de responsabilidade entre os dois fatos.
O que possui relevância jornalística são as posições políticas que o senador efetivamente assumiu ao longo de sua vida pública.
DEMOCRACIA, MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE POLÍTICA
O Brasil encerrou formalmente a ditadura militar em 1985, mas o debate sobre aquele período continua presente na vida nacional.
A Constituição de 1988 estabeleceu um novo marco democrático, assegurando direitos fundamentais, liberdade de expressão, pluralismo político e garantias contra abusos do poder estatal.
Esses princípios constituem a base institucional que permite, inclusive, que diferentes correntes políticas defendam suas interpretações da história.
Por isso, as declarações de representantes eleitos sobre o golpe de 1964, os órgãos de repressão e personagens como Carlos Alberto Brilhante Ustra merecem permanente escrutínio público.
O histórico de manifestações de Flávio Bolsonaro favoráveis à memória do regime militar constitui um elemento relevante para compreender sua trajetória política.
A análise crítica dessas manifestações deve partir dos discursos, documentos e registros históricos, sem confundir vínculos familiares, coincidências de datas e responsabilidades individuais.
A democracia brasileira possui uma história construída também pelo sofrimento daqueles que enfrentaram a censura, a prisão, a tortura e a perseguição política.
Preservar essa memória não significa impedir divergências. Significa assegurar que o debate público não apague os acontecimentos documentados nem silencie as vítimas.
A data de nascimento de Flávio Bolsonaro foi determinada pelo acaso. Suas manifestações sobre a ditadura militar, por outro lado, pertencem ao campo das escolhas políticas — e, como todas as escolhas de um homem público, estão sujeitas ao julgamento crítico da sociedade e ao exame rigoroso da história.
Carlos Magno
Jornalista — DRT/PA 2627
Fonte e crédito editorial: Artigo adaptado de análise em vídeo do jornalista Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo, com contextualização histórica e elaboração jornalística de Carlos Magno.



