População denuncia falta de água, esgoto transbordando e cobranças consideradas abusivas; concessionária atribui problemas a falhas operacionais e afirma que realiza investimentos na rede.
A crise no abastecimento de água em Parauapebas atingiu um novo patamar nesta quarta-feira (1º), quando moradores dos bairros Minérios e Vila Nova interditaram uma das principais avenidas da cidade em protesto contra a concessionária Águas do Pará. A manifestação foi motivada pela falta de abastecimento que, segundo os moradores, já ultrapassa 15 dias consecutivos em diversos pontos da região, além das recorrentes reclamações sobre a qualidade da água, problemas na rede de esgoto e cobranças por serviços que afirmam não estarem sendo prestados.
O protesto começou por volta das 17h e reuniu dezenas de moradores. Pneus foram incendiados para chamar a atenção das autoridades e da própria concessionária. O Corpo de Bombeiros foi acionado para controlar as chamas e liberar a via.
População relata cenário de abandono
Sem água nas torneiras, muitas famílias afirmam estar recorrendo a baldes, tambores e caminhões-pipa para conseguir realizar atividades básicas, como cozinhar, limpar a casa e manter a higiene pessoal.
O representante dos moradores do Bairro Vila Nova, Ebert Marcial, relata que o abastecimento simplesmente deixou de existir em diversas residências.
“A água não chega às torneiras nem às caixas d’água. Quando retorna, muitas vezes apresenta coloração escura e odor forte. As famílias precisam interromper suas rotinas para buscar água em outros locais. É uma situação desumana.”
Além da falta de abastecimento, moradores denunciam que continuam recebendo faturas com valores entre R$ 200 e R$ 300, mesmo sem o fornecimento regular.
Segundo eles, a cobrança se tornou mais um motivo de revolta, já que o serviço essencial não estaria sendo entregue conforme esperado.
Esgoto agrava crise sanitária
Outro problema apontado pelos moradores é o sistema de esgotamento sanitário.
O presidente da Associação dos Moradores do Bairro dos Minérios, Oziel Fernandes, afirma que o esgoto tem retornado para dentro das residências, provocando riscos à saúde pública.
De acordo com ele, a comunidade já encaminhou ofícios, solicitou reuniões e cobrou providências da concessionária, mas afirma não ter obtido respostas capazes de solucionar os problemas.
“Além da falta de água, convivemos com esgoto retornando pelos banheiros e invadindo casas. A população está exposta a riscos sanitários enquanto aguarda uma solução.”
As lideranças comunitárias também questionam as justificativas apresentadas pela empresa sobre manutenções na rede.
Para os moradores, uma interrupção que ultrapassa duas semanas demonstra que os problemas vão além de serviços rotineiros de manutenção.
Histórico de problemas desde a concessão
A Águas do Pará assumiu oficialmente os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário da zona urbana de Parauapebas em 5 de janeiro de 2026, após vencer o leilão de concessão promovido pelo Governo do Estado do Pará, realizado na B3.
A empresa, pertencente ao grupo Aegea, passou a ser responsável pela captação, tratamento e distribuição de água na área urbana do município, enquanto o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Parauapebas (SAAEP) permaneceu responsável apenas pelo atendimento da zona rural.
A concessão ocorreu por decisão do Governo do Estado e não da Prefeitura de Parauapebas. À época, o prefeito Aurélio Goiano manifestou publicamente posição contrária ao processo de privatização dos serviços.
Antes da transição, a cidade já enfrentava dificuldades históricas relacionadas ao abastecimento e ao saneamento básico. Entretanto, a gestão municipal afirmava executar melhorias na estrutura então administrada pelo SAAEP, buscando ampliar a capacidade de distribuição.
Seis meses após a transferência da operação para a iniciativa privada, moradores afirmam que os problemas persistem e, em diversos bairros, se agravaram.
Não é a primeira vez que a concessionária enfrenta críticas.
Em maio deste ano, a própria empresa informou que falhas mecânicas em equipamentos da Estação de Tratamento de Água (ETA 01) provocaram interrupções no abastecimento em diferentes regiões da cidade.
Agora, novamente, bairros inteiros enfrentam longos períodos sem água, alimentando a insatisfação popular.
Cobranças e infraestrutura são alvo das críticas
Além da interrupção no fornecimento, moradores também questionam os valores cobrados nas contas de água.
Segundo relatos apresentados durante a manifestação, as faturas continuam sendo emitidas regularmente, mesmo quando o abastecimento permanece interrompido por vários dias.
Outro ponto levantado pela população é a deficiência da infraestrutura de saneamento. Moradores afirmam que diversos bairros ainda não contam com um sistema eficiente de drenagem e convivem frequentemente com problemas relacionados ao esgoto.
Para as lideranças comunitárias, a situação representa um desrespeito aos consumidores, que esperavam melhorias após a concessão dos serviços à iniciativa privada.
O que diz a Águas do Pará
Em nota encaminhada à imprensa, a Águas do Pará informou que realiza melhorias nos sistemas responsáveis pelo abastecimento dos bairros Minérios e Vila Nova.
Segundo a concessionária, o sistema de rodízio já existia antes da concessão e foi mantido temporariamente para garantir o equilíbrio da distribuição enquanto investimentos são executados.
A empresa afirmou ainda que o cronograma sofreu impactos recentes em razão do furto de cabos elétricos e da queima de uma bomba de captação, situações que exigiram substituição imediata dos equipamentos.
Como medidas para solucionar os problemas, a concessionária informou que realiza substituição de equipamentos antigos, ampliação da capacidade operacional, estudos para implantação de novas fontes de abastecimento e reforço da distribuição por meio de caminhões-pipa.
Em relação ao esgotamento sanitário, informou que executa um mutirão de limpeza e desobstrução da rede.
A empresa também declarou que já eliminou o sistema de rodízio em nove bairros do município e que mantém diálogo com lideranças comunitárias por meio do programa “Afluentes”.
População cobra respostas concretas
Apesar das justificativas apresentadas pela concessionária, os moradores afirmam que as explicações não têm sido suficientes diante da realidade enfrentada diariamente.
Sem água para atender necessidades básicas e convivendo com problemas no sistema de esgoto, a população pede medidas imediatas, maior transparência sobre os investimentos prometidos e uma solução definitiva para um problema que, segundo os manifestantes, compromete diretamente a qualidade de vida de milhares de famílias.
A manifestação desta quarta-feira evidencia o crescente desgaste entre a população e a concessionária Águas do Pará. Mais do que justificativas técnicas, os moradores afirmam esperar resultados concretos, abastecimento regular, respeito aos consumidores e a prestação de um serviço compatível com as tarifas cobradas pela empresa.
Fonte: Da Redação | Por Jordania Peixoto





























