COP30: ONU pede cortes nas próprias delegações em meio à crise de hospedagem em Belém

Fishing boats are seen docked at Ver-o-Peso fish market in Belem, Para state, Brazil on August 26, 2025. Brazil will host the UN climate conference COP30 from November 10 to 21 in the Amazonian city of Belem. (Photo by Anderson Coelho / AFP) (Photo by ANDERSON COELHO/AFP via Getty Images)

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro em Belém, vive uma corrida contra o tempo. Faltando menos de três meses para o evento, a cidade-sede enfrenta uma crise de hospedagem que já afeta diretamente a participação de delegações estrangeiras. Diante dos preços elevados e da falta de vagas, a própria Organização das Nações Unidas (ONU) tem orientado países a reduzirem o tamanho de suas comitivas.

Hospedagem insuficiente e cara

Dados da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) mostram que, das cerca de 198 delegações esperadas, apenas 18 confirmaram hospedagem até agora. Mais de 90% dos países consultados relataram dificuldades para fechar reservas, apontando o custo elevado das diárias em Belém como principal entrave.

Em muitos casos, os valores superam em até quatro vezes o limite de subsistência estipulado pela ONU cerca de US$ 143 a US$ 149 por diária. Essa discrepância afeta especialmente países em desenvolvimento, pequenas ilhas e nações mais pobres, que dependem desse subsídio para viabilizar sua presença no evento.

Proposta rejeitada

O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, chegou a enviar uma carta ao governo brasileiro pedindo subsídios diferenciados para acomodação de delegações, de acordo com a renda de cada país. A proposta, no entanto, foi rejeitada pelo Brasil, que alegou não dispor de recursos adicionais para custear as despesas.

Em reuniões recentes, representantes da ONU também recomendaram que os países revisem o tamanho de suas delegações. Isso significa que muitos poderão cortar técnicos, especialistas e observadores, reduzindo a capacidade de intervenção em negociações paralelas um dos momentos mais estratégicos da conferência.

Reação do governo

O governo federal tem reiterado que a COP30 será realizada em Belém e descarta qualquer possibilidade de mudança de sede. Para tentar contornar a crise, anunciou a criação de uma força-tarefa destinada a negociar tarifas com hotéis, ampliar a rede de hospedagem e oferecer alternativas temporárias, como o uso de navios e imóveis de temporada.

Segundo dados oficiais, Belém conta hoje com aproximadamente 53 mil leitos, número considerado insuficiente para atender a estimativa de 70 mil visitantes esperados durante a COP30, entre diplomatas, ambientalistas, jornalistas e representantes da sociedade civil.

Risco à legitimidade

Especialistas alertam que a crise de hospedagem pode comprometer a legitimidade do encontro. Caso países mais pobres não consigam enviar delegações completas, corre-se o risco de esvaziar a representatividade internacional da conferência, ampliando as desigualdades entre nações ricas e vulneráveis.

“Se a participação se restringir às grandes potências, a COP perde sua essência de fórum democrático e inclusivo”, avalia um diplomata ouvido pela reportagem, sob condição de anonimato.

Símbolo ameaçado

A escolha de Belém como sede da COP30 foi celebrada no ano passado por colocar a Amazônia no centro do debate climático global. O governo brasileiro destacou a importância de dar visibilidade à floresta e às populações tradicionais. Entretanto, os impasses logísticos agora ameaçam ofuscar esse simbolismo.

Analistas lembram que, embora a região seja estratégica para discutir preservação ambiental, a infraestrutura urbana e turística de Belém sempre foi considerada um desafio. O problema atual, afirmam, reflete a dificuldade histórica do Brasil em planejar grandes eventos internacionais em cidades fora do eixo turístico tradicional.

Corrida contra o tempo

Com pouco tempo até o início da conferência, os próximos meses serão decisivos para garantir a participação plena dos países. Enquanto a ONU pressiona por soluções e aconselha cortes, o Brasil aposta em negociações emergenciais e no reforço da estrutura local.

A expectativa é que, nas próximas semanas, novas medidas sejam anunciadas para tentar reduzir os custos das diárias e ampliar a oferta de hospedagem. Caso contrário, a COP30 corre o risco de ser lembrada não pelos avanços nas negociações climáticas, mas pela crise de logística que colocou em xeque a própria inclusão internacional no maior encontro sobre clima do planeta.

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