A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro em Belém, vive uma corrida contra o tempo. Faltando menos de três meses para o evento, a cidade-sede enfrenta uma crise de hospedagem que já afeta diretamente a participação de delegações estrangeiras. Diante dos preços elevados e da falta de vagas, a própria Organização das Nações Unidas (ONU) tem orientado países a reduzirem o tamanho de suas comitivas.
Hospedagem insuficiente e cara
Dados da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) mostram que, das cerca de 198 delegações esperadas, apenas 18 confirmaram hospedagem até agora. Mais de 90% dos países consultados relataram dificuldades para fechar reservas, apontando o custo elevado das diárias em Belém como principal entrave.
Em muitos casos, os valores superam em até quatro vezes o limite de subsistência estipulado pela ONU cerca de US$ 143 a US$ 149 por diária. Essa discrepância afeta especialmente países em desenvolvimento, pequenas ilhas e nações mais pobres, que dependem desse subsídio para viabilizar sua presença no evento.
Proposta rejeitada
O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, chegou a enviar uma carta ao governo brasileiro pedindo subsídios diferenciados para acomodação de delegações, de acordo com a renda de cada país. A proposta, no entanto, foi rejeitada pelo Brasil, que alegou não dispor de recursos adicionais para custear as despesas.
Em reuniões recentes, representantes da ONU também recomendaram que os países revisem o tamanho de suas delegações. Isso significa que muitos poderão cortar técnicos, especialistas e observadores, reduzindo a capacidade de intervenção em negociações paralelas um dos momentos mais estratégicos da conferência.
Reação do governo
O governo federal tem reiterado que a COP30 será realizada em Belém e descarta qualquer possibilidade de mudança de sede. Para tentar contornar a crise, anunciou a criação de uma força-tarefa destinada a negociar tarifas com hotéis, ampliar a rede de hospedagem e oferecer alternativas temporárias, como o uso de navios e imóveis de temporada.
Segundo dados oficiais, Belém conta hoje com aproximadamente 53 mil leitos, número considerado insuficiente para atender a estimativa de 70 mil visitantes esperados durante a COP30, entre diplomatas, ambientalistas, jornalistas e representantes da sociedade civil.
Risco à legitimidade
Especialistas alertam que a crise de hospedagem pode comprometer a legitimidade do encontro. Caso países mais pobres não consigam enviar delegações completas, corre-se o risco de esvaziar a representatividade internacional da conferência, ampliando as desigualdades entre nações ricas e vulneráveis.
“Se a participação se restringir às grandes potências, a COP perde sua essência de fórum democrático e inclusivo”, avalia um diplomata ouvido pela reportagem, sob condição de anonimato.
Símbolo ameaçado
A escolha de Belém como sede da COP30 foi celebrada no ano passado por colocar a Amazônia no centro do debate climático global. O governo brasileiro destacou a importância de dar visibilidade à floresta e às populações tradicionais. Entretanto, os impasses logísticos agora ameaçam ofuscar esse simbolismo.
Analistas lembram que, embora a região seja estratégica para discutir preservação ambiental, a infraestrutura urbana e turística de Belém sempre foi considerada um desafio. O problema atual, afirmam, reflete a dificuldade histórica do Brasil em planejar grandes eventos internacionais em cidades fora do eixo turístico tradicional.
Corrida contra o tempo
Com pouco tempo até o início da conferência, os próximos meses serão decisivos para garantir a participação plena dos países. Enquanto a ONU pressiona por soluções e aconselha cortes, o Brasil aposta em negociações emergenciais e no reforço da estrutura local.
A expectativa é que, nas próximas semanas, novas medidas sejam anunciadas para tentar reduzir os custos das diárias e ampliar a oferta de hospedagem. Caso contrário, a COP30 corre o risco de ser lembrada não pelos avanços nas negociações climáticas, mas pela crise de logística que colocou em xeque a própria inclusão internacional no maior encontro sobre clima do planeta.




























