PARAUAPEBAS/CARAJÁS/PARÁ/BRASIL/AMAZÔNIA – Enquanto grandes arenas diplomáticas discutem transição energética e metas climáticas, o Povo Indígena Xikrin do Kateté afirma que sua sobrevivência está em jogo às margens dos rios Cateté e Itacaiúnas, no sudeste do Pará. Em 2026, comunidades indígenas iniciaram um movimento mobilizado em prol de medidas urgentes de mitigação dos impactos da mineração, denunciando que a poluição hídrica, social e sanitária — resultado das atividades minerárias da Vale S/A — ameaça a própria vida de milhares de pessoas.
Contaminação por metais pesados, saúde e vida tradicional
Pesquisas técnicas coordenadas pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e integradas a ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) concluíram que a quase totalidade das pessoas indígenas analisadas possui níveis alarmantes de metais pesados em seus organismos, especialmente chumbo, mercúrio, lítio, manganês e outros elementos tóxicos — com impactos diretos à saúde, qualidade de vida e bem-estar das comunidades Xikrin.
Os corpos d’água tradicionais — rios Cateté e Itacaiúnas — são fontes centrais de subsistência: ali se obtém água, peixes, atividades de pesca, coleta de alimentos florestais e práticas ligadas à cultura e ao sistema alimentar tradicional. A contaminação destes cursos d’água compromete não apenas a saúde física, mas todo o modo de vida do povo Xikrin, que relata a dificuldade crescente em alimentar-se dos peixes e recursos naturais da floresta para sustento familiar e cultural.
Manifestações e diálogo institucional
Em manifestação pacífica permanente nos arredores do empreendimento Onça Puma, lideranças Xikrin mantêm um *acampamento de protesto que já dialogou com autoridades, incluindo uma reunião com o Ministério Público Federal de Marabá e o procurador Igor Spíndola, realizada na Aldeia Pratinhõpuru. Na ocasião, caciques e representantes reafirmaram a autonomia de suas comunidades e sublinharam: “a natureza e os rios — contaminados — são nossa própria vida”. A mobilização ocorre em meio a relatos e estudos científicos que apontam contaminação generalizada por metais pesados em praticamente toda a população indígena local, tema também debatido durante a COP30, em Belém, porém sem respostas concretas à altura da crise.
📄 Pauta de reivindicações ao Estado, à Vale e às autoridades locais
Reunidas em documento formal, as lideranças Xikrin apresentaram uma Pauta de reivindicações estruturada e abrangente, que inclui:
1. Indenização pelos danos causados pela contaminação dos rios Cateté e Itacaiúnas;
2. Adoção de ações emergenciais de água potável, segurança alimentar e outras medidas humanitárias essenciais, independentemente do andamento de ações judiciais;
3. Revisão imediata do Plano Básico Ambiental com Participação da Comunidade Indígena (PBACI), com participação de técnicos indicados pelos Xikrin;
4. Criação de um Fundo Ambiental Xikrin para recuperação ecológica dos rios;
5. Criação de um Fundo Social para tratamento médico da comunidade, com melhorias nos serviços de saúde e odontológicos com abrangência nacional;
6. Inclusão da comunidade indígena no Acordo de Cooperação Técnica entre a Prefeitura Municipal de Parauapebas e a Vale, garantindo a manutenção da Casa de Saúde Indígena Xikrin do Kateté;
7. Incremento de recursos para coleta tradicional de castanhas e outras atividades de subsistência familiar;
8. Convocação dos diretores dos empreendimentos Onça Puma, S11D, Salobo e Alemão para diálogo direto;
9. Diálogo ampliado com as Prefeituras de Parauapebas, Água Azul do Norte e Ourilândia do Norte — municípios que circundam ou fazem divisa com a Terra Indígena Xikrin do Kateté.

Essa pauta crescente e articulada reflete demandas históricas e urgentes por justiça socioambiental, elaboradas pelas lideranças indígenas com apoio institucional de organizações como IBX — Instituto Indígena Botxê Xikrin e a FEB.XIKRIN — Federação Brasileira do Povo Indígena Xikrin, além das Associações Indígenas de cada Aldeia Xikrin, que acompanham institucional e juridicamente o processo e a trágica situação.
📍 Contexto institucional e repercussões
A ação civil pública do MPF acusa a Vale, a União e o Estado do Pará pela contaminação dos povos Xikrin com metais pesados, afetando ambos os rios Cateté e Itacaiúnas, e demanda tratamento médico imediato, monitoramento contínuo da saúde e responsabilização das autoridades competentes.

Em síntese: A mobilização dos Xikrin no início de 2026 representa uma dura confrontação entre direitos humanos, direitos dos povos indígenas e modelos de exploração de recursos naturais. Contra um pano de fundo de evidências científicas de contaminação, reivindicações humanitárias e ambientais, e um conjunto de demandas por reparação, subsistência e dignidade, o povo Xikrin reafirma que sua luta é pela vida, pela cultura e por um futuro em que seja possível viver em harmonia com a terra e as águas que sustentam sua existência

Da redaçao Xikrim.




























