Em 2022, o país registrou mais de 245 mil casos de agressão doméstica, o equivalente a 673 mulheres por dia buscando ajuda . Já os registros de ameaça ultrapassaram 613 mil ocorrências, evidenciando que a violência começa muito antes do feminicídio.

Além disso, foram contabilizadas cerca de 899 mil chamadas à polícia relacionadas à violência doméstica, uma média de 102 por hora . Mesmo assim, especialistas alertam que há forte subnotificação, e que apenas os casos mais graves chegam às autoridades .
Dados mais recentes reforçam agravamento da violência e elevam alerta sobre feminicídio no Brasil
Os números mais recentes sobre feminicídio no Brasil mostram que o cenário, já alarmante em 2022, se agravou significativamente até 2025, consolidando uma tendência de crescimento contínuo da violência contra a mulher no país.
De acordo com dados atualizados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número da última década, representando um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.492 casos . O resultado confirma uma escalada persistente, mesmo após anos de vigência da legislação específica para esse tipo de crime.
Além dos casos consumados, o cenário se torna ainda mais grave quando consideradas as tentativas. Levantamento nacional aponta que o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio em 2025, entre casos consumados e tentados — um crescimento de 34% em relação ao ano anterior . Na prática, isso significa que quase seis mulheres foram vítimas por dia no Brasil.
Outro dado que chama atenção é o contexto em que esses crimes ocorrem. Cerca de 66,3% dos feminicídios aconteceram dentro de casa, e 62,6% das vítimas eram mulheres negras, evidenciando a relação direta entre violência de gênero, desigualdade social e vulnerabilidade .

O volume de processos também acompanha essa alta. Em 2025, o Judiciário brasileiro recebeu mais de 1 milhão de novos casos relacionados à violência doméstica, enquanto os julgamentos de feminicídio cresceram 17%, com média de 42 decisões por dia .

Um crime anunciado
O feminicídio raramente acontece de forma isolada. Na maioria dos casos, ele é o resultado de um ciclo contínuo de violência. A perseguição, por exemplo, é um dos principais sinais de risco: estudos apontam que até 76% das vítimas foram perseguidas antes de serem mortas .
Esse padrão revela uma falha crítica: os sinais existem, mas não são interrompidos a tempo.
Leis existem, mas não bastam
O Brasil possui uma das legislações mais avançadas no papel, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. No entanto, a aplicação ainda enfrenta entraves.
Medidas protetivas de urgência, por exemplo, podem ser concedidas rapidamente, mas muitas vezes não são suficientes para garantir a segurança da vítima. Em diversos casos, o agressor continua tendo acesso à mulher, mesmo após a denúncia.
Experiências internacionais apontam caminhos
Países que conseguiram reduzir os índices de violência de gênero adotaram medidas mais rígidas e integradas.
Na Espanha, considerada referência mundial, há tribunais especializados em violência contra a mulher, além do uso de tornozeleiras eletrônicas para monitorar agressores. O sistema permite alertas em tempo real caso o agressor se aproxime da vítima.
Na Itália, o feminicídio pode levar à prisão perpétua em casos agravados, reforçando o caráter punitivo. Já no Canadá, ferramentas de avaliação de risco são utilizadas para identificar casos com maior probabilidade de evoluir para morte, priorizando a proteção dessas vítimas.
Esses modelos têm em comum a integração entre justiça, segurança pública e assistência social.
Punição mais rigorosa e resposta rápida
Especialistas defendem que o Brasil precisa avançar na punição efetiva dos agressores, especialmente em casos de reincidência ou descumprimento de medidas protetivas.
Entre as propostas debatidas estão:
- restrição mais severa à progressão de pena
- agravantes automáticos para reincidentes
- monitoramento obrigatório de agressores de alto risco
- criação de tribunais especializados
A lentidão da Justiça e a sensação de impunidade são apontadas como fatores que contribuem para a continuidade da violência.
Proteção desde a primeira denúncia
Outro ponto central é a necessidade de atuação imediata do Estado logo nos primeiros sinais de violência.
Modelos internacionais indicam que a proteção deve incluir:
- afastamento imediato do agressor
- monitoramento eletrônico com alerta em tempo real
- acompanhamento policial em casos graves
- abrigos seguros para vítimas
Sem essas medidas, a denúncia pode não ser suficiente para evitar a escalada da violência.
Apoio psicológico: peça-chave no enfrentamento
A violência doméstica deixa marcas profundas que dificultam o rompimento do ciclo abusivo. Por isso, o acompanhamento psicológico contínuo é considerado essencial.
Em países como Espanha e Portugal, o atendimento à vítima é multidisciplinar, envolvendo psicólogos, assistentes sociais e apoio jurídico. Esse acompanhamento ajuda a fortalecer a autonomia da mulher e reduzir a dependência emocional.
Além disso, alguns países adotam programas obrigatórios de reabilitação para agressores, focados no controle de comportamento e prevenção de reincidência.
Conscientização e prevenção
A prevenção também passa pela informação. Campanhas educativas, educação nas escolas e canais acessíveis de denúncia são fundamentais para que as vítimas reconheçam sinais de abuso e busquem ajuda.
A experiência internacional mostra que quanto mais cedo a violência é identificada e combatida, menores são as chances de um desfecho fatal.
Um problema que exige ação urgente
O feminicídio é a face mais extrema de uma cadeia de violência que, na maioria das vezes, poderia ser interrompida. Os dados deixam claro que o problema não está apenas na ausência de leis, mas na sua aplicação e na falta de integração entre os sistemas de proteção.
Para especialistas, o enfrentamento eficaz passa por quatro pilares:
- punição rigorosa aos agressores
- proteção imediata às vítimas
- prevenção baseada em dados e monitoramento
- apoio psicológico contínuo
Enquanto essas medidas não forem plenamente implementadas, o país seguirá registrando casos que poderiam ser evitados.
Cada denúncia ignorada pode ser o início de uma tragédia. Cada falha no sistema, uma vida em risco.
Redação: Jordania Peixoto
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023–2025), Agência Brasil, CNN Brasil, Conselho Nacional de Justiça e Senado Federal.





























