Belém, Pará – A arte paraense, mais uma vez, rompe as fronteiras do estado e alcança reconhecimento nacional. A artista visual e ativista indígena Moara Tupinambá foi uma das vencedoras da 5ª Mostra Audiovisual do Museu da Pessoa, uma das mais importantes iniciativas de valorização de narrativas e memórias do país. A premiação, que teve como tema “Vidas Indígenas”, consagrou a animação “O Homem que Enfrentou o Curupira”, dirigida por Moara, na categoria “Criadores Indígenas”.
O curta-metragem, com pouco menos de três minutos, utiliza uma linguagem visual potente e delicada para recontar uma história ancestral da etnia Ka’apor, narrada por Karari Kaapor. A trama acompanha a jornada de um caçador que, ao se deparar com o Curupira, uma das entidades mais conhecidas do imaginário amazônico, consegue escapar da criatura com a ajuda de macacos. A obra é um mergulho na cosmologia indígena, celebrando a oralidade como ferramenta de preservação da cultura e da memória.
Nascida em Belém do Pará e atualmente radicada em Campinas (SP), Moara Tupinambá tem uma trajetória marcada pela intersecção entre arte e ativismo. Integrante dos coletivos MAR e GEMTUPY, e membra da Aldeia Tucumã Tupinambá do Tapajós, seu trabalho transita por diversas linguagens, abordando temas como identidade, resistência e memória do povo Tupinambá. Com exposições em importantes espaços culturais no Brasil e no exterior, como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) e a Bienal de Sidney, a artista se consolida como uma voz fundamental na arte indígena contemporânea.
A 5ª Mostra Audiovisual do Museu da Pessoa recebeu mais de 200 inscrições de todas as regiões do Brasil. Ao todo, 12 produções foram premiadas em quatro categorias, com cada vencedor recebendo um prêmio de R$4 mil. A iniciativa, que conta com o patrocínio da Petrobras, disponibilizou 31 curtas-metragens finalistas em sua plataforma online, ampliando o acesso a narrativas que celebram a diversidade e a potência do audiovisual como ferramenta de identidade e resistência dos povos originários.
O reconhecimento de “O Homem que Enfrentou o Curupira” não apenas celebra o talento de Moara Tupinambá, mas também lança luz sobre a riqueza e a urgência das narrativas indígenas no cenário cultural brasileiro. É a prova de que as histórias ancestrais, quando contadas por quem as vive, possuem uma força capaz de encantar, ensinar e transformar.
Entrevista com Moara Tupinambá
Portal Belém: Moara, parabéns pela merecida premiação! O que significou para você ter seu trabalho, “O Homem que Enfrentou o Curupira”, reconhecido na categoria “Criadores Indígenas” da Mostra Audiovisual do Museu da Pessoa?
Moara Tupinambá: Este prêmio não é só meu, é do meu irmão Nelinho Brasil que também fez parte do processo criativo de edição, pois foi um grande desafio que eu não faria sozinha. E receber esse prêmio é como ouvir a floresta me dizendo: “continua”. É mais do que um reconhecimento individual é a afirmação de que nossas histórias contadas por nós têm potência. Eu sou apenas uma das vozes que se levantam para ecoar memórias que tentaram silenciar. Esse curta nasceu da escuta de Karari Ka’apor, de uma memória viva que pulsa. E ser premiada numa mostra que tem como tema “Vidas Indígenas” é saber que a arte pode ser um território de retomada, um lugar onde a ancestralidade caminha junto com o presente.
Portal Belém: A animação parte de uma narrativa de Karari Kaapor. Como foi o processo de transformar essa história oral em um curta-metragem de animação? Quais foram os maiores desafios e as maiores alegrias nesse percurso criativo?
Moara Tupinambá: Pra mim o maior desafio foi condensar essa história em 3 minutos, que era o tempo tolerado pelo Edital. E também um desafio não está cara a cara conversando com Karari Kaapor, pois o Museu da Pessoa já tinha feito esta conversa e eu deveria criar uma linguagem audiovisual a partir do vídeo já documentado pelo próprio Museu. Minha maior alegria era poder ilustrar uma história totalmente fora do estereótipo do que entendemos sobre Kurupira, pois esse encantado nosso foi folclorizado e estereotipado. Pude trazer um outro olhar e mostrar também a nossa diversidade de contar histórias de Curupira.
Portal Belém: Seu trabalho frequentemente explora temas como memória, identidade e resistência. De que forma “O Homem que Enfrentou o Curupira” se conecta com essas temáticas que são tão presentes em sua trajetória como artista e ativista?
Moara Tupinambá: Essa animação é, para mim, um ato de resistência estética. Eu trouxe o gesto do nanquim, que também lembra o nosso genipapo, e as cores preta e vermelha que lembram nosso urukum. Quando contamos uma história como essa, reafirmamos que nossa memória não está morta, não é passado. O Curupira não é lenda: ele é um código de conduta, um ensinamento vivo que vem dos antigos. Essa é uma estética da memória, da floresta e da justiça ancestral. É um lembrete de que resistir também é lembrar — e lembrar é criar.
Portal Belém: Qual a importância de termos cada vez mais criadores indígenas por trás das câmeras, contando suas próprias histórias, especialmente no contexto atual do Brasil?
Moara Tupinambá: É urgente. Não basta sermos personagens, precisamos ser autores. Quando eu ganho um prêmio desse, não é só eu que ganho, é meu povo também! O audiovisual ainda nos representa a partir do olhar do outro, e esse olhar muitas vezes é colonizador. Quando um parente segura a câmera, ele também segura a palavra, a escolha da luz, do som, da pausa. E isso muda tudo. Precisamos de narrativas que nascem de dentro, que não pedem permissão para existir. Criar é também ocupar. E ocupar é uma forma de existir com dignidade nesse país que ainda tenta nos apagar com palavras como “folclore”, “mestiçagem”, “pardo”. Ser criador indígena é devolver o nome às coisas.
Portal Belém: Quais são seus próximos projetos? O público paraense e brasileiro pode esperar por novas obras em breve?
Moara Tupinambá: Bem, eu farei uma exposição em Campinas “Maenry, Tupinambá eu existo!, que inclusive já passou por Belém no ano de 2024, porém será com uma nova roupagem e com mais obras. Além dessa exposição, participarei com o meu “Manto de Maery” na Bienal de Montevidéu no mês que vem. E também participarei de uma coletiva com uma obra inédita e comissionada no Museu da Imagem e do som em São Paulo, com uma obra inspirada nos arquétipos de Jung. Em Belém, pintarei no Jaguar parede e no Art na Lata, também duas obras inspiradas na nossa cultura. Além disso, durante a Cúpula dos Povos, estarei na FAV da UFPA com a ação “Mairi Vive”, em rodas de conversas e exposição de lambe lambe coletiva durante os dias 11 e 12 de novembro. Bora lá?
SERVIÇO:
O quê: 5ª Mostra Audiovisual do Museu da Pessoa – Vidas Indígenas
Onde assistir: Os filmes premiados, incluindo “O Homem que Enfrentou o Curupira”, estão disponíveis gratuitamente na plataforma da mostra: mostra.museudapessoa.org
Filme: “O Homem que Enfrentou o Curupira”
Direção: Moara Tupinambá
Narração: Karari Kaapor
Fonte: Portal Belém




























