Após mobilização histórica em Brasília, povos indígenas do sudeste do Pará conquistam criação do DSEI Carajás em Marabá, além de Santarém.

Após anos de mobilização, articulação política e resistência coletiva, os povos indígenas do sul e sudeste do Pará alcançaram um marco histórico na luta pelo direito à saúde diferenciada: o anúncio da criação e implementação do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Carajás, com sede em Marabá.

A conquista é resultado de uma longa jornada protagonizada por diversas etnias da região, entre elas os Xikrin do Kateté, Gavião (Parkatêjê e Akrãtikatêjê), Suruí Aikewara, Guajajara, entre outras, além de grupos que vivem e circulam no território sudeste paraense.

Essa diversidade étnica, marcada por trajetórias distintas, encontrou unidade na defesa de um sistema de saúde que respeite as especificidades culturais, territoriais e epidemiológicas dos povos indígenas.

A mobilização ganhou força nos últimos três anos e teve um ponto decisivo durante o Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, em Brasília, quando lideranças intensificaram a articulação institucional junto ao Governo Federal. Delegações indígenas permaneceram mobilizadas na capital federal, participando de audiências, atos públicos e reuniões estratégicas com autoridades.

Entre as principais lideranças à frente desse processo esteve Roiri Xikrin, Diretor Executivo (Presidente) da Federação Brasileira do Povo Indígena Xikrin (FEB.XIKRIN), com atuação direta nos espaços de pressão social e negociação. Segundo ele, a luta pelo DSEI Carajás ultrapassa o campo de burocracia, representando uma demanda essencial à sobrevivência e à dignidade dos povos indígenas da região.

A articulação envolveu uma ampla rede de organizações indígenas e indigenistas. Destacam-se a atuação da FEB.XIKRIN, por meio do Instituto Indígena Botxê Xikrin e das associações das aldeias Xikrin do Kateté; o Conselho Municipal de Políticas Indigenistas de Parauapebas (CMPI); o Conselho Distrital de Saúde Indígena do DSEI Guamá-Tocantins; além do apoio institucional da Federação dos Povos Indígenas do Pará (FEPIPA), entre outras organizações.

Nos dias que antecederam o anúncio oficial, manifestações ganharam visibilidade em diferentes frentes, incluindo mobilizações em aldeias, atos públicos e manifestações em vias estratégicas, amplamente repercutidas nas redes sociais.

As lideranças denunciaram entraves estruturais do modelo atual de atendimento, como a distância geográfica, a sobrecarga dos serviços e a insuficiente adequação cultural das políticas de saúde.

O momento decisivo ocorreu em 5 de maio, após reunião entre lideranças indígenas e representantes do Governo Federal, incluindo o Ministro da Saúde e o Ministro dos Povos Indígenas. A pauta central foi a reestruturação da política de saúde indígena no Pará, com ênfase na criação de novos DSEIs capazes de atender de forma mais eficiente os territórios.

Ainda no dia 5 de maio de 2026, foi anunciado oficialmente, por meio de pronunciamento do Ministro dos Povos Indígenas, a criação do DSEI Carajás, com sede em Marabá, além de outro distrito sanitário em Santarém. A medida foi recebida como uma vitória coletiva dos povos indígenas da região.

A fala de Roiri Xikrin sintetiza o espírito da mobilização: segundo ele, as lideranças não recuariam até a concretização dessa conquista, reafirmando o compromisso com a melhoria das condições de saúde indígena.

No mesmo sentido, lideranças como Bekatenti Xikrin, Conselheiro Distrital de Saúde Indígena e representante regional junto à FEPIPA, e Arukapê Suruí, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) do DSEI Guamá-Tocantins (GUATOC), também tiveram papel relevante na articulação e defesa da proposta, dentre outras lideranças indígenas como os jovens Xane Gavião e Xauã Xikrin.

A criação do DSEI Carajás representa um avanço estrutural na política pública de saúde indígena, permitindo maior proximidade administrativa, melhor gestão dos recursos e maior adequação das ações às realidades locais. Ainda assim, lideranças destacam que o próximo desafio será assegurar a implementação efetiva do distrito, com estrutura adequada, financiamento contínuo e participação ativa dos povos indígenas na gestão.

A conquista, portanto, não encerra a luta, mas inaugura uma nova etapa: a consolidação de um modelo de saúde que respeite a autonomia, os saberes tradicionais e os direitos constitucionais dos povos indígenas do sudeste do Pará.

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